O clima da temporada 36 e a estreia como falso final de série
A temporada 36 representa uma fase curiosa de Os Simpsons, com a série brincando sobre a própria longevidade e ainda entregando episódios confortáveis. Depois de mais de três décadas no ar, a animação já não vive daquela pressão de provar relevância cultural. O desafio agora é outro: continuar divertida sem ignorar o peso absurdo que carrega como uma das séries mais importantes da televisão.
Exibida entre 29 de setembro de 2024 e 18 de maio de 2025, a temporada teve 18 episódios transmitidos pela Fox, além de especiais exclusivos ligados ao Disney+. O showrunner principal continuou sendo Matt Selman, mantendo a fase mais recente da série em uma linha que mistura nostalgia, sátira moderna e bastante autoconsciência. E talvez a melhor prova dessa autoconsciência esteja logo na estreia.
“Bart’s Birthday” abre a temporada fingindo ser um “final de série” oficial de Os Simpsons. O episódio transforma o medo constante do público sobre o eventual encerramento da animação em piada. Conan O’Brien aparece apresentando um suposto adeus definitivo para Springfield, enquanto vários personagens recebem desfechos absurdos, emocionais ou completamente caóticos.
A graça do episódio não está apenas nas referências. O mais interessante é perceber uma série com mais de 35 anos olhando para a própria história e brincando com ela sem medo. “Bart’s Birthday” funciona quase como uma conversa direta com o público que cresceu ouvindo rumores sobre “o fim dos Simpsons”.
Episódios conceituais e a mistura entre tradição e sátira atual
A temporada segue justamente nessa mistura entre tradição e comentários sobre cultura pop atual. “The Yellow Lotus”, por exemplo, parodia séries modernas de luxo e mistério claramente inspiradas na onda de produções como The White Lotus. O episódio aproveita o formato para inserir a família de Springfield em situações que brincam com o gênero sem perder o tom característico.
Já “Treehouse of Horror XXXV” mantém viva a tradição anual de Halloween, ainda funcionando como espaço onde Os Simpsons pode exagerar violência, absurdo, terror e sátira sem precisar seguir as regras normais da série. Esse episódio continua sendo um respiro criativo importante, permitindo que os roteiristas explorem ideias mais arriscadas dentro de um contexto já esperado pelo público.
Outro episódio que chama atenção é “Bottle Episode”, que usa uma proposta mais limitada e concentrada para brincar com espaço, personagens e diálogos. É um exemplo interessante de como a fase moderna tenta variar formato mesmo depois de tantos anos. A série mostra que ainda encontra maneiras de surpreender dentro de sua estrutura.
Assistindo à temporada 36, o público encontra exatamente o que se espera da fase atual: comédia familiar, referências culturais, episódios conceituais, piadas metalinguísticas e histórias que alternam entre nostalgia e comentários sobre o presente. Não parece uma temporada tentando reinventar Os Simpsons do zero. A sensação é mais a de uma série consciente de que já virou tradição cultural.
Acertos da fase atual e o reconhecimento da indústria
A autoconsciência continua sendo um dos maiores acertos dessa fase. Os Simpsons entende perfeitamente o próprio tamanho histórico e sabe transformar isso em humor. O episódio falso de despedida é provavelmente o maior exemplo disso, funcionando como uma carta de amor aos fãs que acompanham a série há décadas.
Além disso, a familiaridade dos personagens ainda funciona muito bem. Rever Homer, Marge, Bart, Lisa, Moe, Burns e companhia continua criando uma sensação de conforto difícil de reproduzir em outras séries. Essa conexão emocional com o público é um dos pilares que sustentam a longevidade da animação.
A temporada também teve reconhecimento importante. “Bart’s Birthday” recebeu indicação ao Emmy de Melhor Programa Animado, mostrando que mesmo após décadas a série ainda consegue chamar atenção da indústria quando aposta em ideias mais criativas. Esse tipo de validação externa reforça que a fase atual, mesmo com altos e baixos, ainda tem méritos.
Para quem deseja conferir os episódios, vale uma busca rápida pelo catálogo atual de streaming ligado ao Disney+, já que a disponibilidade pode variar conforme a região e o período. A temporada 36 encontra seu público ideal entre aqueles que já têm história com Springfield.
Problemas persistentes e a sensação de revisitar Springfield
Mas os problemas continuam existindo. A irregularidade de escrita ainda aparece bastante, com alguns episódios entregando piadas que funcionam muito bem enquanto outros parecem depender mais do carinho do público pela marca Os Simpsons do que de roteiros realmente fortes. Essa oscilação é uma característica que acompanha a série há várias temporadas.
A comparação com a fase clássica dos anos 90 continua inevitável, e certos episódios acabam parecendo menos memoráveis justamente por causa disso. O peso da própria história às vezes joga contra, criando uma expectativa que nem sempre os roteiros conseguem alcançar. Ainda assim, a temporada não se apoia apenas na nostalgia.
Também existe uma sensação de que Springfield hoje funciona mais como espaço confortável de revisita do que como aquela força revolucionária que redefinia animação adulta constantemente. A energia mudou, e a série parece mais interessada em celebrar o que já é do que em abrir caminhos totalmente novos.
Mesmo assim, a temporada 36 vale a pena para fãs antigos, para quem gosta de acompanhar a evolução da série e para espectadores curiosos sobre a fase moderna de Springfield. Talvez ela não seja o melhor ponto de entrada para alguém que nunca viu Os Simpsons. Mas para quem já conhece aqueles personagens, é uma temporada interessante justamente porque mostra uma série aprendendo a envelhecer sem desaparecer.