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Ace Ventura: como o personagem mais irritante do cinema virou ícone da comédia nos anos 90

Ace Ventura: como o personagem mais irritante do cinema virou ícone da comédia nos anos 90

Um personagem criado para ser insuportável

Ace Ventura não foi pensado para agradar logo de cara. Ele fala alto, faz caretas absurdas e invade o espaço das pessoas como se não existisse limite social possível.

O detetive age como um desenho animado descontrolado e parece incapaz de passar cinco segundos sem transformar uma situação normal em caos completo. Justamente por isso, muita gente saiu do cinema em 1994 dividida entre achar tudo completamente idiota e reconhecer que nunca tinha visto ninguém atuar daquele jeito.

A energia incansável do personagem poderia facilmente cansar a audiência, mas o filme dirigido por Tom Shadyac aposta totalmente nessa proposta exagerada. O resultado é um protagonista que transforma o incômodo em carisma.

Talvez o segredo esteja exatamente nessa entrega total ao ridículo. Ace Ventura nunca tenta ser discreto, educado ou contido, e o filme abraça essa escolha sem hesitar.

A energia elástica de Jim Carrey

É impossível falar de Ace Ventura sem entender o que Jim Carrey estava fazendo naquele momento da carreira. Em 1994, ele lançou Ace Ventura, O Máskara e Debi & Loide no mesmo ano, uma sequência quase absurda de sucessos.

Entre esses três filmes, Ace Ventura talvez tenha sido o que melhor apresentou ao mundo aquela versão elástica do ator. Ace não anda: ele desliza, pula, gira e contorce o corpo como se não tivesse ossos normais.

As expressões faciais parecem saídas diretamente de Looney Tunes, com o cabelo armado, as camisas coloridas e a voz estranha formando um personagem que existe em outra realidade. O contraste com o resto do elenco, que tenta agir dentro de um mundo relativamente comum, reforça ainda mais essa sensação.

Enquanto policiais e jornalistas seguem uma lógica minimamente normal, Ace entra em cena como uma bomba de energia caótica. A graça nasce justamente do desconforto que ele causa em todo mundo ao redor.

Investigação absurda e carisma com os animais

A trama do filme acompanha Ace, um detetive especializado em encontrar animais desaparecidos, que entra no caso do golfinho Snowflake. O mascote do time Miami Dolphins some pouco antes do Super Bowl, e a investigação envolve policiais irritados, jogadores de futebol americano e conspirações bizarras.

A participação de Dan Marino, lendário quarterback do Miami Dolphins, virou marca registrada do longa. O filme mistura investigação policial com esporte de um jeito tão absurdo que parece impossível dar certo, mas funciona dentro daquela energia completamente exagerada dos anos 90.

Apesar de ser completamente excêntrico, Ace demonstra carinho genuíno pelos bichos, o que deixa o personagem estranhamente simpático no meio de tanta maluquice. Já sua relação com a polícia funciona quase como guerra eterna, com ele debochando das autoridades o tempo inteiro e invadindo investigações como se fosse mais inteligente que todos.

Na maioria das vezes, ele é mesmo. Ace transforma toda investigação em espetáculo pessoal e não sabe ser discreto, mas sua intuição acaba se mostrando certeira durante a história.

O impacto cultural e as piadas que envelheceram mal

Ace Ventura praticamente transformou Jim Carrey em referência máxima do humor físico. Tem a cena clássica dele saindo destruído de dentro de um rinoceronte mecânico, as danças ridículas, os gritos e as reações exageradas que pareciam feitas para serem repetidas no recreio da escola por uma geração inteira.

Segundo dados de bilheteria da época, o filme arrecadou mais de US$ 100 milhões mundialmente com orçamento relativamente baixo, transformando Jim Carrey em estrela gigante praticamente da noite para o dia. O longa ajudou a definir um tipo específico de humor que dominou os anos 90: exagerado, físico, barulhento e completamente sem medo do ridículo.

Só que também vale olhar para o filme com honestidade hoje. Algumas piadas envelheceram mal e são frequentemente criticadas atualmente, especialmente elementos ligados à representação de gênero no final da história.

Parte do humor dos anos 90 funcionava dentro de uma lógica muito diferente da sensibilidade atual, e Ace Ventura claramente carrega isso. Rever o filme hoje significa também perceber como certas comédias daquela época apostavam em choques e piadas que seriam recebidas de maneira bem mais crítica atualmente, mas isso não apaga sua importância histórica na cultura pop.

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